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Obras do Autor
Romances
O Quinze (1930)
João Miguel (1932)
Caminho de Pedras (1937)
As três Marias (1939)
Dora, Doralina (1975)
O Galo de Ouro (1985)
Memorial de Maria Moura (1992)
Crônicas
A Donzela e a Moura Torta (1948)
O Brasileiro Perplexo
O Caçador de Tatu (1967)
As Menininhas e Outras Crônicas (1976)
O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980)
Mapinguari (1989)
As Terras Ásperas (1993)
Teatro
Lampião (1953)
A Beata Maria do Egito (1957)

Dados do Autor
Nasceu em Fortaleza, Ceará, em 17 de novembro de 1910.

Faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 4 de novembro de 2003

Texto extraído do livro: A Literatura Brasileira Através dos Textos, Massaud Moisés, Editora Cultrix, 1971. e do site da Academia Brasileira de Letras (www. academia.org.br).

Rachel de Queirós
Sucesso precoce, O Quinze, publicado em 1930, chamou a atenção da crítica e fez de Rachel de Queirós o grande nome da literatura brasileira. Cronista e romancista, foi uma das poucas mulheres a ingressar para a Academia Brasileira de Letras.

Grande Seca e Mudança para o Rio

Filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descende, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar, parente portanto do autor ilustre de O Guarani, e, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e Beberibe. Em consequência da grande seca de 1915, muda-se com os pais para Rio de Janeiro e, pouco tempo depois, para Belém, no Pará. Em 1919, regressa a Fortaleza e, em 1921, matricula-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde faz o curso normal, diplomando-se em 11925, aos 15 anos de idade.

Jornalismo, O Quinze e Política

Estréia em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queiroz, publicando trabalho no jornal O Ceará, de que se torna-se, afinal, redatora efetiva. Em fins de 1930, publica o romance O Quinze, que teve inesperada e funda repercussão no Rio de em São Paulo. Com vinte anos apenas, projeta-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca. O livro, editado às expensas da autora, aparece em modesta edição de mil exemplares, impresso no Estabelecimento Gráfico Urânia, de Fortaleza. Recebe crítica de Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha, Agripino Grieco e Gastão Gruls. A consagração vem com o Prêmio da Fundação Graça Aranha. Após uma frustrante experiência política, em razão da qual conhece fortes dissabores, inclusive a prisão, muda-se para o Rio de Janeiro onde vai morar até o final de sua vida.

 
   
Jornalismo e Literatura intensos

Em 1932, publica um novo romance, intitulado João Miguel, e em 1937, retorna com Caminho de pedras. Dois anos depois, conquista o prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. Em 1950, publica em folhetins, na revista O Cruzeiro, o romance O galo de ouro. Cronista emérita, publica mais de duas mil crônicas, cuja seleta propicia a edição dos seguintes livros: A donzela e a moura torta; 100 Crônicas escolhidas; O brasileiro perplexo e O caçador de tatu. No Rio, onde reside desde 1939, colabora no Diário de Notícias, em O Cruzeiro e em O Jornal. Tem duas peças de teatro, Lampião, escrita em 1953, e A Beata Maria do Egito, de 1958, laureada com o prêmio de teatro do Instituto Nacional do Livro, além de O padrezinho santo, peça que escreveu para a televisão, ainda inédita em livro. No campo da literatura infantil, escreve o livro O menino mágico, a pedido de Lúcia Benedetti. O livro surge, entretanto, das histórias que inventava para os netos. Dentre as suas atividades, destaca-se também a de tradutora, com cerca de quarenta volumes já vertidos para o português.

Inúmeras Condecorações e Homenagens

Foi membro do Conselho Federal de Cultura, desde a sua fundação, em 1967, até sua extinção, em 1989. Participa da 21ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, em 1966, onde serviu como delegada do Brasil, trabalhando especialmente na Comissão dos Direitos do Homem. Em 1988, inicia sua colaboração semanal no jornal O Estado de S. Paulo e no Diário de Pernambuco. Recebe o Prêmio Nacional de Literatura de Brasília para conjunto de obra em 1980; o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, em 1981; a Medalha Mascarenhas de Morais, em solenidade realizada no Clube Militar (1983); a Medalha Rio Branco, do Itamarati (1985); a Medalha do Mérito Militar no grau de Grande Comendador (1986); a Medalha da Inconfidência do Governo de Minas Gerais (1989); O Prêmio Luís de Camões (1993); o Prêmio Moinho Santista, na categoria de romance (1996); o Diploma de Honra ao Mérito do Rotary Clube do Rio de Janeiro (1996); o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2000). Em 2000, foi eleita para o elenco dos 20 Brasileiros empreendedores do Século XX, em pesquisa realizada pela PPE (Personalidades Patrióticas Empreendedoras). Foi eleita em 4 de agosto de 1977 e recebida em 4 de novembro de 1977 pelo Acadêmico Adonias Filho.



Geração de 30


Trechos da Obra

 

DIVERSIDADES EM TEMPO DE SECA

Quando Chico Bento, depois daquela noite passada ali, no abandono da estrada, chamou a mulher e, ajudando a levantar um dos meninos, foi andando em procura do povoado, em vão buscou, pelas voltas do caminho, sentando nalguma pedra, o vulto de Pedro.
Na estrada limpa e seca só se via um homem com uma trouxinha no cacete, e mais à frente, dentro de uma nuvem de poeira um cavaleiro galopando.
- Que besteira! Naturalmente ele já está no Acarape...
Mas chegaram ao Acarape, e debalde perguntaram pelo menino a todo o mundo. Não... Ninguém tinha visto... Sabia lá!... A toda hora estava passando retirante...
Numa bodega, onde o vaqueiro novamente fez indagações alguém lembrou:
- Homem, por que você não vai falar ao delegado? Ele é que pode dar jeito. Mora ali, naquela casa de alpendre.
No modo que agora era o seu, curvado, quase trôpego, Chico Bento endireitou para a casa apontada, que ficava meio apartada das outras, tendo de um lado um alpendre onde se viam algumas cangalhas de palha roída.
E bateu à porta, enquanto Cordulina se sentava no chão, na beirada do alpendre.
Lá de dentro, uma voz de mulher disse baixinho:
- Abre não, menina, é retirante... É melhor fingir que não ouve...
Chico Bento escutou; e sua voz lenta explicou, dolorida:
- Não vim pedir esmola, dona; eu careço é de ver o delegado daqui...
Um homem de cachimbo no queixo mostrou a cara na meia porta:
- Está falando com ele. O que é?
Chico Bento ficou um instante encarnando o homem, reconhecendo-o.
Mas o delegado, impaciente, repetiu a pergunta:
- O que é que você queria?
- Eu vim falar ao senhor mode um filho meu, que desde ontem tomou sumiço. Nós ficamos na estrada, eu assim, variando muito fraco... e ele veio vindo até aqui. Quando de manhã cacei o menino, não teve quem desse notícia.É como é ele?
- Assim comprido, magrinho, a cara chupada... está dentro dos doze anos...
O delegado tirou o cachimbo da boca e, calcando com o dedo o tabaco, abanou a cabeça:
- Não tenho jeito que dar não, meu amigo... O menino, naturalmente, foi-se embora com alguém... Um rapazinho, assim sozinho, muita gente quer.
Cordulina ouvia confusamente o que diziam, e chorava, baixinho. Desanimado, Chico Bento sentou-se na mesma beirada de tijolo, junto à mulher.
Ainda na porta, o delegado entrou a fitar o caboclo com insistência, reconhecendo também aquela cara, o jeito de ombros, a fala. E perguntou:
- Donde você é?
A voz cansada soou fracamente:
- Eu sou filho natural de Iguatu, mas faz muito tempo que morava pras bandas do Quixadá.
(O Quinze, 1930.)

 


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